12 de agosto de 2022

Sophia de Mello Breyner Andresen

Marinero sin mar

Lejos tiene el marinero
una serena playa de manos puras
mas perdido recorre las oscuras
calles de la ciudad sin piedad.

Todas las ciudades son navíos
cargados de perros aullando a la luna
cargados de enanos y muertos fríos

y él se balancea como un mástil
en sus hombros se apoyan las esquinas
va sin aves ni olas repentinas
tan solo sombras nadan en su estela.

En las confusas redes de su pensamiento
se enganchan oscuras medusas
muerta cae la noche con el viento

y sube por escaleras escondidas
y gira por calles sin nombre
por la misma oscuridad conducido
con pupilas transparentes y de vidrio

va por los continuos corredores
los pulpos de la sombra lo estrangulan
y luces como peces voladores
lo alucinan.

Porque tiene un navío aunque sin mástiles
porque el mar se ha secado
porque el destino ha borrado
su nombre de los astros
porque su camino se ha perdido
su triunfo fue vendido
y las manos tiene pesadas de desastres

y en vano se yergue entre las visiones
buscando la luz de la alborada pura
llamando al viento de los malecones

ningún mar lavará el asco de su rostro
las imágenes son eternas y precisas
en vano seguirá llamando al viento
que recto corre por las playas lisas

él morirá sin mar y sin navíos
sin rumbo lejano o mástiles altivos
morirá entre paredes cenicientas
pedazos de brazos y restos de cabezas
flotando en la penumbra de las auroras lentas.


Y al Norte y al Sur
y al Este y al Oeste
los cuatro caballos del viento
agitan ya sus crines

y el espíritu del mar pregunta:

«¿Qué fue de aquel
para el que yo guardaba un reino puro
de espacio y de vacío
de olas blancas y profundas
y de verde frío?»
Ya no dormirá en la arena lisa
entre medusas, conchas y corales

él dormirá en la podredumbre
y al Norte y al Sur
y al Este y al Oeste
los cuatro jinetes del viento
exactos y transparentes
lo olvidarán

porque se desvió de lo que era eterno
y separó su cuerpo de la unidad
y se entregó al tiempo dividido
de las calles sin piedad.



Sophia de Mello Breyner Andresen. Marinheiro sem mar (escritas.org/pt)
Sophia de Mello Breyner Andresen. Marinheiro sem mar (youtube)
Trad. E. Gutiérrez Miranda 2022


                    ∼

Marinheiro sem mar

Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade.

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai baloiçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes do seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando a luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há no cais

Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas.

E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:

“Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?”
Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas, conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavaleiros do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.



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